"Devagar com o andor, que o santo é de barro" Entrevistas
  • Fabio Barreto
  • Gloria Pires
  • Rui Ricardo Diaz
  • Daniel Tendler
  • Denise Paraná
  • Fernando Bonassi
  • Luiz Carlos Barreto
  • Lucy Barreto
  • Paula Barreto

Fábio Barreto (Diretor)


Lula, o Filho do Brasil partiu de uma provocação de Luiz Carlos Barreto, que leu o livro de Denise Paraná e se apaixonou. Qual foi sua primeira reação?


Não só aceitei no ato como entrei no processo de peito aberto. Sabia que seria um filme de alto risco, que exigiu muita coragem de todos os envolvidos, mas conseguimos manter a motivação inicial: contar a história não conhecida do Presidente Lula com base no livro da Denise Paraná. Para mim, contar essa história era também a possibilidade de fazer um filme sobre o povo brasileiro. Conheço bem o Brasil, aliás, acho que conheço o Brasil inteiro. Também já viajei muito pelo exterior, e sei que o brasileiro tem peculiaridades únicas: ele é teimoso, corajoso, tenaz, solidário, lutador, generoso. O filme foi também a oportunidade de falar de um povo injustamente criticado por muita gente. E havia uma razão pessoal: meu pai, como Lula, é um nordestino que veio para o Sudeste e venceu. De certa forma, este filme é também a história da vida dele.


Como você define Lula, o Filho do Brasil?


Como um filme sobre um homem comum, um brasileiro que sai do nada, e chega ao cargo mais importante do país. É também um filme sobre a relação entre este homem e sua mãe, uma mulher simples, analfabeta, que lutou para criar oito filhos e preservar a família unida – e conseguiu. Esta família, por sua vez, faz parte do maior movimento migratório interno do mundo, que levou 35 milhões de nordestinos a deixarem suas terras em busca de uma vida melhor. O percurso de Lula começa no sertão, vai para Santos nos anos 50 e chega à periferia de São Paulo nos anos 60, quando se consolida a criação do maior parque industrial da América Latina. Em meados dos anos 70, Lula passa a atuar no sindicato do ABC. O resto é História.


O filme termina em 1980, com a morte de Dona Lindu, antes da criação do PT. Por que não falar da atuação política de Lula?


Porque todo mundo conhece a vida política de Lula, mas poucos conhecem sua vida pessoal – e era esse o nosso foco e o nosso interesse. A trajetória do Lula é marcada por muitas datas emblemáticas – nasceu no final da Segunda Guerra, a família abandona o pai em 1954, data da morte de Getúlio, ele perde o dedo em 64, ano do golpe militar, e o pai morre quando se decreta anistia. Em 80 ele inicia a carreira política. Continuar a história seria jogar o filme na política, com a fundação do PT, uma história que todo mundo sabe. Lula é um personagem fantástico, sobretudo pela extrema capacidade de superação. Sua vida foi marcada por dois fatos cruciais: a ausência e depois o confronto com um pai violento, que achava que “pobre não devia estudar, mas trabalhar”, e depois, a morte da primeira esposa no parto, juntamente com o filho. Esta perda provocou uma catarse na vida de Lula, que aprofundou seu engajamento no movimento sindical, desandou a falar e não parou mais, descobriu uma liderança que não conhecia, e que mudou a sua vida e a vida do país. O principal motor de sua trajetória foi a atuação sindical, onde aquele homem barbudo comandou, com palavras, um exército de operários.


Qual o maior desafio de fazer um filme que narra a história do Presidente da República?


A margem de erro era grande, pois o filme fala de fatos e pessoas reais que existem e que têm notoriedade. É difícil e foi preciso muita coragem para fazer esse filme. Desde o início, eu sabia que minha maior limitação seria o medo, a insegurança. Fui destemido, mas contei com uma ótima equipe, em todas as etapas, com um elenco excelente e uma produção impecável. Durante a preparação, li um discurso do Lula em que ele dizia: “acredite em vocês que vocês vão chegar aonde quiserem”, palavras que adotei como lema durante as filmagens. Se um diretor consegue vencer a insegurança, enfrenta qualquer coisa. Ninguém filma em São Paulo impunemente, ainda mais no ABC, certamente o lugar em que mais chove e cai raio do mundo (risos). A única pessoa que me faria filmar em São Paulo seria Lula.


Lula é interpretado por Rui Ricardo Diaz, estreando no cinema. Você queria um rosto desconhecido para interpretar um personagem super-conhecido?


Não necessariamente. Pensamos em João Miguel, que apesar de muito elogiado, não é tão conhecido, que estava com problemas de agenda. Pensamos em Wagner Moura, que estava fazendo Hamlet. Dificilmente um ator consagrado aceitaria o desafio – se desse errado, ficaria marcado para sempre. Optamos por Tay Lopez, que não era muito conhecido (fez o pastor em Última Parada 174) e sua saída, por motivos de saúde, a dois meses do início das filmagens, foi um baque. Rui Ricardo fez um teste para o papel de enfermeiro e quando vi, mandei chamá-lo imediatamente. Em nosso primeiro encontro, falamos pouco, mas fui muito claro e disse: “Não quero imitação, não quero caricatura, quero pegada”. Seu teste foi fazer um discurso sentado sozinho no meio do estúdio. Ele foi valente – não se intimidou. Levou o papel. Apesar de ser um estreante em cinema, Rui Ricardo revelou uma grande força, uma aura impressionante. Hoje estou certo de que tudo aconteceu da forma certa e na hora certa: digo que Rui foi um enviado de Deus e de Dona Lindu – duvido que algum ator se saísse melhor.


Você diz que não queria uma imitação de Lula. Como foi a preparação de Rui Ricardo para o papel?


Um ator não pode se submeter ao personagem – ele deve interpretar, representar, com a superação e as limitações que isso implica. Não queria uma imitação. Conheço as caricaturas de Lula – do gestual à língua presa. O importante era a pegada emocional, o carisma, a força, a intensidade de suas relações, a começar pela mãe.


E como foi a interação, a química entre um estreante e Glória Pires, uma atriz experiente como Dona Lindu, e com quem você já havia trabalhado em Índia, a Filha do Sol e O Quatrilho?


Essa química passou por questões muito interessantes. Em uma ponta estava um estreante que tinha pela frente um personagem que é um mito, com um mar de referências, conhecido por todos e que faria qualquer ator tremer. Na outra ponta, estava uma atriz experiente que iria interpretar uma personagem sobre a qual quase não havia referência visual. Glória construiu Dona Lindu do nada, a partir de conversas com filhos, amigos e parentes. Nesta construção, uma fonte importante foi Marinete, a filha mais velha com quem fez uma gravação de 50 minutos através do skype, pois estava em Paris, e à qual ficava assistindo como se fosse uma aula. Glória conversou uma vez com Lula, participou de um almoço de família, assim como Rui Ricardo. A Glória é muito econômica, tem um aspecto mediúnico, parece muito forte, mas na verdade lida muito com a fragilidade. Ela tem um lado muito espiritualizado e generoso. Apesar das diferenças de estrada, a química e a relação entre os dois foi excelente, e muito ajudada pela orientação de Sergio Penna.


Pela primeira vez você trabalhou com um preparador de elenco?


Em A Paixão de Jacobina, trabalhei com uma preparadora alemã e Dora Pelegrino, mas agora acho que todo diretor deveria ter um diretor de elenco e mais: este diretor deve ser o Sergio Penna, mesmo que o filme tenha apenas dois atores em um apartamento. Um diretor lida com muitas áreas, demandas e problemas, e certamente não dispõe do tempo que um elenco precisa. Todas as orientações dadas aos atores foram estabelecidas comigo, em um trabalho de grande cumplicidade.


Você começou as filmagens pelo Nordeste, na região em que Lula nasceu. Como foi a experiência?


Muito rica, mas muito trabalhosa, sobretudo com o elenco infantil e adolescente. Fizemos questão de filmar o mais próximo possível dos lugares em que as coisas aconteceram, e de um modo geral, tudo continua muito parecido, mesmo 45 anos depois. E ocorreram fatos muito curiosos. Na região, todo mundo conhece a história daquela família, e há várias famílias como aquela. As pessoas se aproximavam, contavam casos, queriam colaborar de alguma forma até porque todo mundo quer ver aquela história no cinema. As pessoas largavam tudo para participar, embarcavam como se fosse a própria vida delas. É o mesmo processo que acontece com o espectador quando entra no cinema e quer se ver, se identificar, se emocionar.


Como diretor, você se sentiu tolhido em sua liberdade de criação ao abordar a trajetória de um personagem tão conhecido?


Em qualquer filme, problemas de produção podem limitar a chamada liberdade criativa. Neste filme, com uma produção de porte, existiu todo um trabalho prévio que evitou deixar cair bombas do tipo “não tem isso”, “não pode aquilo”, que também cerceiam o diretor. Felizmente, nada disso aconteceu. Por outro lado, a base do filme é o livro, fundamentado em fatos reais, mas não posso garantir que esses tenham acontecido exatamente da maneira que estão na tela. Neste sentido, o filme é todo uma recriação. Apesar desta sólida base real, trabalhei com a maior liberdade, acompanhei o roteiro de perto, escrito pelo meu genro Daniel que desenvolveu a estrutura com Denise Paraná, autora do livro. Na fase final chamamos Fernando Bonassi, que teve experiência de operário e cresceu no ABC e que deu contribuições essenciais, sobretudo na última parte do filme, que aborda o movimento sindical.


O que Lula, o Filho do Brasil representa na sua trajetória? Você fez filmes bem diversificados, em várias regiões do Brasil.


Quando faço um filme quero que ele me transforme, me modifique, me faça crescer. Fiz principalmente filmes de época e em regiões de atividade agropastoril. Comecei com Índia, a Filha do Sol (filmado no Araguaia, Goiás), uma estréia maravilhosa. Depois veio O Rei do Rio, meu único filme urbano, que eu pretendia que fosse o meu D. Flor e tomei o maior pau. Passei dez anos em crise, fiz Luzia Homem (no sertão do Canindé, Ceará) e TV até chegar a O Quatrilho (interior do Rio Grande do Sul) e me deslumbrei: agora é Hollywood, o topo da colina. Não foi bem assim. Seguiu-se uma nova crise de dez anos – que incluiu Bela Donna (litoral do Ceará), A paixão de Jacobina, Nossa Senhora de Caravaggio (novamente no Rio Grande do Sul), a série para TV Desperate Housewives. Fui salvo por Lula. Independentemente do que acontecer, o filme já me tirou da última crise. Crise é igual a crescimento, mas não quero outra – o processo de fazer Lula já foi salvador, fiz o filme com extremo prazer.


Você esteve com o Presidente Lula antes das filmagens?


Estive com Lula uma vez, três dias antes do início das filmagens e levei o roteiro. A posição dele foi: não quero saber. Tive total carta branca. Ele tem pudor, e adotou uma postura de não interferir – enquanto muita gente achava que aconteceria o contrário. Ele gosta de conversar, contar histórias e vai assistir ao filme pela primeira vez sozinho, uma forma de se preparar para a exibição em público.


E você, está preparado para as cobranças?


Pois é, como em jogo de futebol, no caso do Lula, todos se transformam em técnicos, especialistas no assunto, de uma maneira ou outra. A história de Lula é muito mais cheia de incidentes do que está na tela, e muita coisa foi atenuada, como a violência do pai, ou a violência da avó, uma rendeira que expulsava os netos que iam pegar melancia em seu quintal a tiros. Sem falar que no velório da mulher e do filho, houve uma enchente, o piso cedeu e a casa desabou. A cena foi filmada, mas não colocamos. Se o filme fosse contar a história toda, ninguém agüentaria. Não tenho medo de cobranças. Sei que vou ter todas – não vai faltar nenhuma, a começar pela família, passando por questionamentos do filme ser lançado em ano eleitoral e atuar como peça de propaganda.


Mas o filme pode contribuir para a campanha eleitoral de 2010?


Lula não precisa do filme. Nós é que estamos tirando uma casquinha da popularidade do Presidente. Com seu índice de popularidade, ele não precisa do filme, mas o cinema brasileiro precisa de um filme com um personagem como Lula.


O filme vai contribuir para entender o Lula?


O filme não foi feito para entender o Lula – mas para as pessoas verem que mesmo nas piores condições é possível chegar aonde ele chegou. Ele é um migrante nordestino, um ex-operário, e o principal bem que fez ao país foi o aumento da auto-estima, como se dissesse o tempo todo “Se eu estou aqui, você também pode estar. Eu sou igual a você, nós somos iguais. Eu estou aqui porque eu teimei muito. Não fiquem aí reclamando da vida”.

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Gloria Pires (Dona Lindu)


Como você recebeu o convite para interpretar Dona Lindu?


Eu estava em Paris quando Fabio me ligou, e de certa forma, ‘me intimou’ para o papel. Confesso que fiquei meio perplexa, com o pé atrás: fazer um filme sobre o presidente da República em dois mandatos? Ele falou do livro da Denise Paraná, da importância de Dona Lindu na vida do Lula e me mandou o livro. Quando acabei de ler, fiquei muito impressionada e conquistada: eu não sabia nada daquela história tão forte e tão brasileira. O passo seguinte foi ler o roteiro e gostei muito. Além de bem-escrito, era muito equilibrado – tem cenas reais, outras que fazem você embarcar no sonho. A história era redonda, emocionante, e, sobretudo verdadeira. Me conquistou.


Lula é um personagem cercado por um mar de referências, enquanto praticamente não existem referências sobre Dona Lindu. Como você trabalhou essa falta em cima de uma personagem real?


Ao voltar ao Brasil, no final de 2008, nos reunimos com a família – de um lado, Fábio, Paula, Ricardo, Milhem e eu, do outro, filhos, netos, parentes. Foi muito emocionante, porque não encontramos apenas irmãos de sangue, mas pessoas ligadas por uma história muito tocante, em um ambiente muito rico e envolvente. Todos os filhos choram quando falam de Dona Lindu. Peguei o que pude de pessoas que a conheceram, fui juntando partes para montar o quebra-cabeça. E surgiu uma mulher símbolo de força e de intuição feminina. Ela não tinha estudo, instrução, mas tinha muita sabedoria e sabia que o estudo era a chave para um futuro melhor.


E que retrato você formou de Dona Lindu?


Ouvi opiniões muito variadas, mas havia um ponto unânime: era uma pessoa muito sincera, confiante e extremamente forte. Lula nasceu quando ela tinha perto dos 30 anos. Era a época da grande seca, a família vivia com muitas dificuldades, e o marido foi para São Paulo tentar uma vida melhor, como tantos outros nordestinos. Ele deixou Lindu grávida de Lula, e talvez por isso ela tenha desenvolvido uma relação tão especial com ele. Em uma volta do Aristides, o marido, ela engravidou novamente. Em 1952, com sete filhos, ela foi para São Paulo de pau-de-arara, uma viagem de 13 dias, – levando de um bebê de colo a uma mocinha. Ao chegar ao destino, ela descobre que Aristides tinha outra mulher, outra família, e mesmo assim eles viveram um bom tempo na mesma cidade até a situação ficar insustentável: Aristides tornara-se alcoólatra, era muito violento com as crianças, queria impedir que estudassem. D. Lindu decide deixar Santos e ir com todos os filhos para São Paulo tentar outra vida – e consegue.


Por todos esses aspectos – pelo fato de ser uma personagem real, tão forte, corajosa, e ainda mãe do presidente da República – você sentiu uma grande responsabilidade ao assumir o papel?


Sem dúvida. É muita responsabilidade interpretar alguém que está registrado na memória das pessoas. Mas você também tem mais chances de chegar mais perto da pessoa real. É impossível imaginar o que ela não passou para manter a família unida e na linha, com filhos de idades tão diferentes. Ela é uma personagem importantíssima, sem dúvida, mas também havia espaço para criar alguma coisa.


O filme começa no Nordeste, justamente com a saída de Aristides e o nascimento de Lula. Como foram as filmagens?


Foi muito importante ter começado as filmagens no local em que tudo aconteceu nos anos 40 e 50. Ter sentido o ambiente, o clima de onde aquela história começou. Durante as filmagens, nos desligamos de nossas vidas, tínhamos mais tempo para trabalhar e de certa forma criar um clima de família, que foi muito positivo para as filmagens. Além disso, contei com Sergio Penna, o preparador de elenco. Pela primeira vez, tive esse tipo de suporte, que valia como um retorno do que eu estava fazendo, o que eu estava passando e principalmente o que estava faltando. Com apoio do Sergio essa família do elenco surgiu e cresceu.


Você acompanhou a escolha do Rui Ricardo?


A escolha do Rui foi muito emocionante – ao ver o teste fiquei estarrecida com uma coisa física muito evidente. Mas além deste lado físico, ele é um excelente ator, as pessoas vão ficar impressionadas. Podem achar que é imitação, mas não é: ele atua de uma forma muito verdadeira.


D. Lindu vive cenas de muita tensão com Milhem Cortaz.


Milhem é um grande ator, nunca tínhamos trabalho juntos. Ele faz um trabalho muito intenso, muito profundo. Não tivemos muitas seqüências, mas travamos uma boa convivência no período que antecedeu as filmagens. Tivemos um tempo bom na locação, se criou um laço importante.


Lula é um filme com muitos momentos emocionantes. Qual o mais emocionante para você?


Para mim a seqüência-prêmio é a que ele faz o discurso no estádio de Vila Euclides. Ninguém estava esperando aquela quantidade de gente, e Lula se viu sem estrutura, sem palanque, sem microfone. A solução foi improvisar: Lula faz o discurso pedindo às pessoas que repitam o que ele está dizendo para que todos saibam o que está sendo dito. É realmente muito emocionante.


Como foi contracenar pela primeira vez com a Cleo, que interpreta Lurdes, sua primeira nora?


Eu e Cleo somos mãe e filha, mas temos uma relação muito forte de amizade. A nossa diferença de idade -19 anos – não é tão grande. Tenho total confiança nela e ela em mim. Trabalhamos juntas poucos dias, todos muito prazerosos. Para mim, foi muito emocionante vê-la atuar, mesmo sendo ator e guardando uma certa distância, há momentos em que a atuação toca algo de verdade dentro de você. A cena do hospital foi muito forte.


Como você se sente por ter participado do filme, ter desempenhado papel tão emblemático de mulher, de mãe?


Acho que esta é uma história que precisava ser contada. Nós, brasileiros, precisamos criar o hábito de contar fatos de nossa história. Conhecemos fatos tão bobos da história de outros países e desconhecemos fatos da nossa própria História. Fiquei muito feliz com o convite do Fábio para interpretar uma personagem com quem me identifico. Dona Lindu é o arquétipo da mulher que gera e alimenta os filhos. O Brasil está florido de mulheres generosas como Dona Lindu, que vão adiante e conseguem uma vida melhor para seus filhos.


Você estreou no cinema com Fábio, em Índia, a filha do Sol, e se reencontraram em O Quatrilho, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Como foi este novo reencontro?


Fábio está em um grande momento de sua carreira. Fez um filme importante, político no sentido de que toda ação gera uma atitude política, mas sem ser panfletário, chapa-branca. A história é tão incrível, com lances tão dramáticos, que poderia estar próxima de um dramalhão. Acho que Fábio conseguiu o distanciamento certo, próximo da realidade, sem romancear de uma forma piegas. Fiquei muito feliz com o trabalho.

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Rui Ricardo Diaz (Lula)


Como você reagiu à convocação inesperada de fazer um teste para o papel de Lula?


Foi, de fato, uma surpresa. Eu tinha feito um teste para outro personagem, o Fabio viu e me chamou para fazer um teste para o papel de Lula. Recebi um vasto material – sete dvds, discursos, textos. Fiquei um fim de semana mergulhado naquele universo. O teste definitivo, um discurso, foi muito especial. Eu queria demais o papel e dei o melhor de mim. Depois do teste, fui embora tranqüilo – a experiência tinha sido tão forte que mesmo se não levasse o papel já teria valido a pena. Felizmente, também ganhei o papel.


Você tem formação teatral. Fazer cinema estava nos seus planos?


Sem dúvida. Antes de qualquer coisa a gente aprende a ver cinema. Eu queria muito trabalhar em cinema, mas nunca pensei que pudesse estrear dessa forma, logo com o Lula. É um desafio muito grande. A primeira coisa que tentei fazer foi não pensar na dimensão do personagem, me concentrar em contar uma parte da sua história, que vai até 1980, e que é pouco conhecida. Assim tive a oportunidade de trabalhar tranqüilo.


Como você se aproximou do personagem?


Desde o início, o Fabio foi muito claro e firme: não queria uma imitação, uma caricatura de Lula, mas a emoção - o que é muito mais difícil. Essa era a maior preocupação do Fabio e a minha também, mais do que buscar a voz exata, eu tinha que encontrar o olhar, construir um personagem verdadeiro, sem exagerar. E para isso, eu tinha que ser sincero. O tempo todo, nós buscamos uma unidade que demonstrasse uma continuidade, não apenas física, mas emocional. Essa preocupação foi tão grande, que fui ao Nordeste assistir ao início das filmagens, que mostram a partida do pai, o nascimento de Lula, até o embarque da família no pau-de-arara. Obviamente, eu não aparecia nessas cenas, mas tanto o Fabio como a produção acharam essencial que eu conhecesse os lugares de onde saiu não só meu personagem mas toda a família - era importante sentir a atmosfera da região. Conversei com primos, parentes, vizinhos, ouvi histórias maravilhosas, prestava atenção no jeito de falar e de ser daquelas pessoas. Um dia, durante as filmagens, arrumei uma bicicleta e resolvi explorar a região, e cheguei ao lugar onde o Lula nasceu. Fiquei ali, sozinho, parado, olhando aquela paisagem, pensando, foi aqui que tudo começou. Foi uma experiência muito forte.


E como foi a preparação para as filmagens em São Paulo?


Foi um trabalho intenso - do começo de dezembro ao início das filmagens em fevereiro. Foram quase dois meses e durante esse tempo, parei tudo – não tive Natal nem Ano Novo. Fiquei imerso em um outro mundo. Fabio queria que todos participassem da forma mais presente possível nesse trabalho. Tive a grande sorte de contar com Sergio Penna, um grande preparador de ator, e que tem um método muito particular: ele vai para a ação, vai para a prática de uma forma diferente, quase hipnótica, sempre na busca dessa emoção verdadeira.


Você interpreta Lula dos 18 aos 35 anos, um período marcado por grandes mudanças, em todos os níveis.


Sem dúvida, mudanças inclusive nos rumos do país. Mas o que mais me preocupava era transmitir as grandes mudanças, pessoais e profissionais, pelas quais o Lula passou nesse período. Uma fase de muitas perdas e transformações, inclusive físicas. E nesse aspecto, para começar o trabalho, tive que engordar 10 quilos, e depois perder, em três semanas – a fase mais difícil, mesmo contando com a ajuda de uma nutricionista, personal trainer e cardiologista. Embora a comida do SPA fosse saborosa, era pouca (risos). É curioso que quando o peso muda, você também muda e o personagem exigia essa mudança. Mas a minha grande preocupação, mais do que a voz, mais que mudar fisicamente, era fazer de verdade. Eu tinha que ser uma pessoa de emoções muito fortes, alguém capaz de levar milhares de pessoas às lágrimas, como aconteceu no Paço Municipal de São Bernardo do Campo e no Estádio da Vila Euclides, este último um marco na trajetória do Lula. E para um ator repetir essa façanha, não é fácil. Tive que buscar essas lembranças de alguma forma. Comecei, então, a percorrer os caminhos por onde o Lula poderia ter passado – fábricas, sindicato (onde conversei com seus antigos companheiros), igrejas, ruas, praças públicas e os locais em que morou. Além disso, fiz uma vasta pesquisa de material - vi várias vezes filmes sobre o Lula, sobre o movimento sindical, sem falar no livro da Denise... enfim, todo material possível a respeito. Foi um momento de imersão no universo deste personagem e na história desta família.


Você entra no filme quando Lula tem 18 anos. Como foi a ligação com o Lula adolescente?


O Fabio tinha uma preocupação grande com essa passagem, da fase adolescente para a vida adulta, por isso acompanhei todas as filmagens e fiquei muito próximo do Guilherme Tortolio, que interpreta o Lula adolescente. Foi uma troca muito especial e importante: eu precisava saber de onde o personagem vinha e ele precisava saber para onde o personagem ia. E nós dois precisávamos achar uma linha para esse personagem. Durante uma semana convivemos em um curso no Senai de torneiro mecânico, e foi muito importante. Tudo foi construído para uma passagem sólida do personagem, como se ele me passasse o bastão. Queríamos buscar uma unidade não apenas física, mas emocional.


Em sua estreia no cinema, em um papel com o peso do personagem, você contracenou com Glória Pires, uma atriz de grande experiência. Como foi essa troca?


O processo de filmagem foi muito interessante – e embora as filmagens tenham começado no Nordeste, meu trabalho com a Glória começou pelo fim. Nossa primeira cena foi no hospital, quando Dona Lindu já estava bem velhinha e doente. Quando nos encontramos, antes da ação em si, ela já era a Dona Lindu e eu o Lula. Fiquei segurando sua mão por uns 40 minutos, e Dona Lindu me contava “causos”, histórias. Eu estava entre o Rui e o Lula, e desde esse primeiro contato, desse primeiro dia, Glória me acolheu de uma forma muito generosa. Quando fomos para a ação, já éramos mãe e filho. Devo dizer que Dona Lindu é a maior protagonista desta história, e também a maior referência, a maior influência do Lula, não tenho dúvida. É uma personagem incrível. E a Glória, claro, por essa generosidade, a construiu de uma forma muito espontânea e sincera.


E como foi a relação com Juliana Baroni, Cleo Pires e os demais atores?


Era importante para o Fabio que durante o processo de ensaio houvesse uma proximidade entre os atores. Ensaiei quase um mês com a Juliana, e quando fomos para a cena já tínhamos uma afinidade, já nos conhecíamos o suficiente para criar uma relação importante para aquelas duas personagens. O mesmo aconteceu com a Cleo, e com os demais atores. Essa cumplicidade real foi fundamental para estabelecer o clima emocional que se pretendia. Mas o Fabio, além da sensibilidade como diretor, tem uma grande virtude, é um camarada que sabe agregar as pessoas, olha... foi um processo especial.


Você teve contato com Lula?


Com o Lula não, mas conheci sua família, irmãos, e principalmente Frei Chico, que acompanhou as filmagens. Conversávamos muito e ele me deu muitos elementos para a construção da personagem. Também pude conversar muito com Vavá, com as irmãs, e fui sentindo como eram as relações da família. É só falar na Dona Lindu e todos choram. Eu me emocionei muito com uma história tão verdadeira. Hoje compreendo essa emotividade tão presente no Lula – ele passou por perdas muito grandes - a perda do pai, que na verdade nunca teve, a perda da mulher e do filho, a perda do dedo. E após cada perda ele se transformava e ficava mais forte. Vivi tudo, e tive que viver, como um processo muito intenso, do qual só me desliguei dias depois de terminar as filmagens. Estou apenas começando em cinema, mas tenho certeza de que esta foi uma experiência única.


Durante o processo, qual a cena ou as cenas mais difíceis? Como foi fazer o discurso no Estádio da Vila Euclides?


Falar de cenas difíceis neste trabalho também não é fácil: muitas foram emocionalmente intensas. Entre elas a perda do dedo, a morte da Dona Lindu, os discursos... Mas acho que a mais carregada de emoção e que me exigiu bastante concentração, foi a perda da primeira esposa e do filho. O Lula era ainda muito jovem e sonhava em construir uma família com a Lurdes. Para qualquer pessoa, uma perda dessas pode significar o fim de muitos outros sonhos, mas mais uma vez Lula dá, após um período de longos meses e a duras penas, a volta por cima. É um camarada de muita força.
O discurso da Vila Euclides também foi incrível: ter visto aqueles vídeos, aquele momento único, poder rememorar fatos que eu não vivi, lembranças de um período tão importante para a história desse país. E poder fazer parte dessa reconstituição e levar a pessoas que, como eu, não viveram aquele acontecimento, é algo que poucos adjetivos podem explicar.

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Daniel Tendler (Roteirista)


Como você se preparou para escrever o roteiro de Lula, o Filho do Brasil?


Além da base, o livro da Denise Paraná, li muitas reportagens, entrevistas, assisti a todos os filmes que conhecia sobre o Lula, como ABC da Greve, Peões, Entreatos.
Gosto muito do Nordeste e fiz uma ampla pesquisa sobre a viagem do pau-de-arara, consultei fotos da revista O Cruzeiro. Tínhamos um material muito amplo, e começamos por uma escaleta bem larga, que resultou em um primeiro tratamento de 250 páginas. Essa parte foi desenvolvida com a Denise Paraná. Cada um fazia de 20 a 30 seqüências, líamos o trabalho do outro, e ao final desta primeira fase ficou o que chamamos de ‘grudão’, que, ao longo de várias e várias versões, e quase um ano de trabalho, deve ter chegado a mil páginas, até cair, finalmente, para 200.


E como vocês abordaram um material tão amplo, que cobria quase quatro décadas, locais e fatos tão marcantes e diversificados?


Desde o início, Luiz Carlos e Fábio tinham como maior preocupação colocar a parte humana em primeiro plano. A grande sacação do Luiz Carlos foi definir as datas do filme – do nascimento de Lula, em 1945, até 1980. Com esse corte, a questão era eleger os fatos principais de cada época. E várias datas de Lula coincidiam com fatos marcantes da História. Outro norte fundamental foi a ênfase na relação com a mãe – os irmãos de Lula quase não falam. Esta ênfase tinha um motivo muito forte: Lula foi o primeiro filho que nasceu sem pai, marcando uma nova época para Dona Lindu, apesar do pai ter voltado depois, e ela ter engravidado novamente. Escrever o roteiro foi, de certa forma, buscar o equilíbrio entre os dois personagens, até a morte de dona Lindu.


Você não ficou intimidado pelo desafio de escrever um roteiro que cobre 35 anos da história de Lula e do país?


Como trabalho na produtora, comecei a escrever em estreita parceria com o Luiz Carlos, que foi uma fonte de primeira linha, com a memória e a vivência de como as coisas realmente eram. Trabalhei também muito próximo do Fábio e do Marcelo Santiago. Não imagino como seria escrever um roteiro desse porte trancado, sozinho e eles fizeram questão de acompanhar muito de perto essa feitura. E por todo o processo, até a montagem, eu os considero Marcelo e Fábio co-autores. Não foi um roteiro fácil, pois aborda uma história muito rica. A vida do Lula faz parte de várias estatísticas: migração nordestina, pai violento e alcoólatra, operário do ABC que sofreu um acidente de trabalho, perda da mulher e do filho em acidente hospitalar, entre muitos outros. Aconteceu tanta coisa na vida do Lula, que parece ficção.


E por falar em ficção, você teve vontade de ficcionar alguma coisa?


Foi um processo interessante, pois no primeiro tratamento tinha muita ficção. A tentação de acrescentar é muito grande, e é também um caminho facilitador, mas aí bateu a autocrítica. Criar é fácil, difícil é amarrar uma história que aconteceu sem inventar. Nesse sentido, a parceria com Denise foi muito importante, pois ela atuava como um inspetor da realidade, revisando fatos e datas, o que foi essencial. Ao longo de todas as versões, a maior preocupação foi o equilíbrio entre as décadas e a história do Lula, o que determinava alguns marcos: o nascimento sem pai, a carta falsa - e quantas pessoas não devem ter ido para São Paulo em busca de um mundo melhor, em decorrência de cartas falsas? E foi essa carta que acabou, depois, determinando o grito de independência da Lindu – que foi de uma ousadia inacreditável na época, levando em conta a idade dos filhos. A chegada em Santos, a ida para São Paulo também estão repletos de fatos importantes.


Você lamentou ter deixado de fora algumas cenas, passagens da vida do Lula?


Lamentei ter deixado de fora a história com a Lurdes, que é ainda mais sutil e mais bonita do que está no filme. O livro da Denise conta com detalhes o cotidiano deste casal que se conheceu tão jovem, ainda na adolescência. Um aspecto fascinante na vida do Lula é que quando ele não toma as rédeas do destino, é como se o destino fosse até a ele e o puxasse para frente. Começou com a carta falsa, que provocou uma guinada no destino de toda a família. A entrada para o Sindicato também foi por acaso: como Frei Chico não podia concorrer à eleição, Lula entrou no lugar dele A morte de Lurdes provocou outra reviravolta não-intencional: para Lula, a vida estava ganha. Ele já era um herói para a família: tinha estudado, estava empregado, poderia ficar naquela vida o resto da vida. Apesar de já participar do Sindicato quando era casado, com a morte da Lurdes, a militância ganhou um espaço que certamente não teria ocorrido em outras circunstâncias. O papel que o destino tem na vida de Lula é muito impressionante.


Em algum momento você conversou com o Lula?


Não, não conversei com Lula, mas conversei muito com seus irmãos Chico e Vavá. O livro da Denise foi a base do filme. Contamos também com a importante participação de Fernando Bonassi, que interferiu sobretudo a partir da morte de Dona Lindu. Como ele é filho de operários e teve uma vivência no ABC, a sua participação também foi essencial.


Você ficou satisfeito com o resultado final?


Sem dúvida, foi um privilégio ter trabalhado com Luiz Carlos e Lucy, eles não deixam passar nada, questionam absolutamente tudo, o que é ótimo – considero esse roteiro o final da minha formação. Riscos, sempre há. Roteiro é uma questão de escolher. Tentamos fazer o melhor – e acredito termos contado uma bela história verdadeira.

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DeniseParaná (Co-roteirista e autora do livro Lula, o Filho do Brasil


Quando você começou a escrever o livro pensou que algum dia a saga do personagem chegaria aos cinemas?


Desde a primeira entrevista que eu realizei com o Lula, ainda em 1992, percebi que aquilo era “cinema puro” - dramaturgia de primeira ocorrendo em cenários de plasticidade incrível.


Qual a sua reação quando foi convidada para escrever o roteiro?


Percebi que o produtor, Luiz Carlos Barreto, estava interessado em manter-se fiel à história original. Isso foi muito bom porque a história original supera qualquer ficção.


Geralmente adaptações de livros para o cinema costumam deixar os autores frustrados, sobretudo pelos cortes. Como você se sente em relação ao resultado?


O filme toma algumas licenças poéticas, mas procura ser fiel à biografia real. Para contar uma história tão profundamente rica como esta e que abrange um período histórico que se estende por quatro décadas, tivemos que realizar vários cortes. . Há cenas de enorme delicadeza e emoção entre Lindu e Lula, e cenas românticas com a Marisa que foram cortadas. Não poderíamos fazer um filme de 20 horas. Em função disso, nossa idéia é produzir depois uma minissérie para a TV contemplando parte do que ficou de fora.


Você diria que os principais pontos da pesquisa foram mantidos?


Acredito que sim, em parceria com Daniel Tendler. Mas o essencial é que este é um filme do Fábio Barreto, ou seja, ainda que produzido a partir da adaptação de um livro escrito por mim, o filme é a leitura e o ponto de vista do Fábio. Se dez diretores fizessem filmes baseados num mesmo livro, teríamos dez filmes diferentes.


Qual foi a sua maior preocupação durante a realização do roteiro – a humanização e desmitificação do personagem, a relação com a mãe, a saga do nordestino?


Todas estas, sem dúvida. Estamos mostrando o Brasil e seu povo numa história real de superação. Se Lula é um personagem único, de uma trajetória jamais vista, ao mesmo tempo sua experiência pessoal é a repetição da biografia de incontáveis brasileiros. O filme trata de uma história em que o particular e o universal dançam de rosto colado.


Como você acha que o filme será recebido em um ano eleitoral?


Sei que em 2010, quando tantos interesses estarão em jogo durante a campanha presidencial, os ânimos estarão acirrados. Mas eu espero que os meios de comunicação avaliem honestamente o filme, pelas suas qualidades e defeitos reais. Porque quem assistir ao filme perceberá facilmente que não se trata de uma peça publicitária; muito pelo contrário, verá que ali não há exaltações ou mitificações, mas apenas “homem humano”, como dizia Guimarães Rosa. E, antes de mais nada, é preciso lembrar que Lula nem é candidato à reeleição.


Lula, o Filho do Brasil começa com as seguintes frases: “Este é um livro sobre um homem controvertido. Antes de mais nada, um homem que soube mudar radicalmente um destino que, tudo indica, ‘deveria ser seu’”Este princípio também norteou o seu envolvimento com o roteiro?


Certamente. Lula ascendeu numa sociedade repleta de limitações, preconceitos, impedimentos de toda a sorte, mas ainda assim, repleta de possibilidades. A história do Lula é a história do improvável, mas também do possível.


Lula, o Filho do Brasil, tem como personagem o presidente do Brasil. Trata-se de um filme político? Como você acha que será recebido pelas pessoas que o admiram e por aquelas que o criticam?


Não se trata de um filme político, mas de uma história humana de superação que envolve, também, política. O filme está assentado numa relação mãe e filho, na história da busca pela sobrevivência e por dias melhores. Como nós todos sabemos, nenhum olhar consegue ser totalmente neutro. Aqueles que tendem a ver Lula com bons olhos tenderão a ver o filme desta forma, os que não gostam do presidente, provavelmente, no início, resistam a ir ao cinema. Mas estou convicta de que, quando o boca a boca começar a funcionar, teremos com este filme o mesmo fenômeno de que houve com Dois Filhos de Francisco. Muita gente, como eu, foi ao cinema porque ouviu de amigos boas referências e não por ser fã dos biografados. Mas a verdade é que o filme se sustenta por ser revelador da história brasileira e de seu povo, pela atuação brilhante dos atores, pela direção e tantas outras qualidades.


Você reescreveu Lula, o Filho do Brasil, para coincidir com o lançamento do filme. Qual o motivo?


O livro original é minha tese de doutorado que defendi na USP. O que eu fiz agora foi reescrever esta mesma história biográfica de forma romanceada, em texto mais curto, porque muita gente me pedia isso. Seu conteúdo continua sendo único e original, já que nenhuma outra biografia sobre o Lula foi formulada a partir de entrevistas com ele, como a que escrevi, mas de recortes de matérias da imprensa e outras fontes secundárias. Além disso, para esta nova versão romanceada, viajei para Caetés, entrevistei novamente toda a família de Lula, incluindo primos distantes e outros aparentados. Colhi novas e surpreendentes histórias.

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Fernando Bonassi (Co-roteirista)


Como foi participar do roteiro sobre um personagem que é presidente do país?


Em minha opinião, a trajetória deste homem e o período retratado pelo filme representam um dos melhores momentos políticos e éticos do país. Pessoalmente, foi uma honra e um prazer, pois estava no ABC durante a ditadura e depois, quando da gestação do PT, como operário da ZF do Brasil, que fazia caixas de câmbio para a Volkswagen. É também parte da história de minha família.


Como você se preparou para esta participação?


O livro de Denise Paraná norteou nosso trabalho de roteiristas, bem como filmes (como o magistral ABC da Greve de Leon Hirszman), entrevistas e contatos informais. Há também, muita memória pessoal, o desejo de dar carne e espírito à História.


De que forma sua experiência pessoal contribuiu?


Fiz curso do SENAI dentro da fábrica da ZF, em 1976. Guardo comigo a odiosa vivência da fábrica, a empulhação do valor moral do trabalho, o puxa-saquismo dos operários e pais de família transformados em ratos da produção, a humilhação constante perante os chefes de orientação nazista (tinha que chamar meu chefe de Sr. FEITOR toda vez que ia ao banheiro!).


Qual foi a sua maior preocupação na elaboração do roteiro?


Se tiver ocorrido, quero crer que minha melhor contribuição terá sido politizar a trama, lembrar a todos, inclusive ao protagonista, de seus importantes compromissos históricos iniciais.

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Luiz Carlos Barreto (Produtor)


Você é o pai da idéia de filmar Lula, o Filho do Brasil. Como surgiu o projeto?


Em viagens ao exterior, quando eu dizia que era brasileiro, as pessoas sempre me perguntavam sobre Pelé, Ronaldo, eventualmente sobre Ayrton Senna. Depois da primeira eleição de Lula, em 2002, passei a ouvir “Quem é o Lula?” A pergunta vinha de motorista de táxi, de porteiro de hotel, de gente do meio artístico, em festivais. De tanto ouvir “Quem é Lula?”, percebi que eu também não sabia. Como a maioria das pessoas, sabia que ele era Presidente da República, tinha sido líder sindical, fundador do PT e lutado contra a ditadura. E quase nada além disso. Um dia, em Brasília, conversei com Gilberto Carvalho, então secretário do Lula, contei esta história e admiti: “Eu não sei quem é o Lula”. Ele perguntou: “Você quer mesmo saber?” Abriu a gaveta, pegou o livro “Lula, o filho do Brasil” e disse “Aqui você vai conhecer o verdadeiro Lula”. Ele explicou que o livro era uma tese de doutorado e, quando a autora, Denise Paraná, assessora de Lula, apresentou a idéia ouviu: “Se for para me puxar o saco, nada feito. Mas se for para me ajudar a me conhecer melhor, autorizo”. Comecei a ler o livro no vôo, continuei a ler no táxi ao chegar ao Rio, virei a noite lendo, e só parei quando terminei. Ao fechar o livro, sabia que tinha um belo filme nas mãos, não sobre um político ou o presidente da República, mas sobre um homem comum, sua família e a extraordinária capacidade de superar dificuldades.


Que elementos provocaram esse entusiasmo?


O livro reproduz a tese de doutorado em que a autora teve a humildade de não falar, apenas reproduzir as entrevistas com Lula, seus irmãos, ex-companheiros, amigos, vizinhos. Se eu não tivesse lido o livro, jamais teria pensado em fazer um filme sobre o Lula, pois ele mostra não só sua formação, como a vida da família. Uma família brasileira como milhares de outras que saem do Nordeste em busca de uma vida melhor e sofrem com falta de escolaridade, falta de trabalho, falta de assistência médica, que enfrentam desemprego, acidentes de trabalho, enchentes. Posso dizer, portanto, que o projeto nasceu da necessidade de responder à pergunta: “Quem é o Lula?”. Através do livro, entendi que a resposta passaria necessariamente por sua relação com a mãe.


Por que essa ênfase na relação com a mãe-filho?


Dona Lindu era uma mulher simples, analfabeta, mas de muita garra e sabedoria. Talvez por ter sido o primeiro filho a nascer depois da partida do pai para São Paulo, ela tenha eleito Lula como “o que iria estudar, o que seria alguém na vida”. Segundo relato dos outros filhos e de parentes, ela era extremamente filosófica. O grande ideólogo de Lula não foi Lênin, Marx, Fidel Castro. A ideologia de Lula foi extraída dos ensinamentos da mãe, que tinha um lado pragmático que ele também apresenta. Ela era uma mãezona, cujo lema de vida, quase um bordão era “nessa família não vai ter nem bandido nem prostituta”. E ela conseguiu: seus sete filhos permaneceram íntegros. Imagino que o livro seja uma espécie de Bíblia para o Lula, que ele de vez em quando consulta, às escondidas, para reencontrar as palavras da Lindu. Denise poupou, assim como o Lula, a imagem do pai, que é muito pior do que a que está no filme. Lula diz que a memória da mãe é mais importante do que o sofrimento causado pelo pai, o que já mostra uma tendência de ver o lado positivo das coisas, como Dona Lindu.


O filme começa em 1945, com o nascimento de Lula, e termina em 1980, antes da formação do PT.


Justamente pela importância que D. Lindu teve na vida de Lula decidimos terminar o filme quando ela morre, em 1980. A partir desta data, a história de Lula passou a ser conhecida por todos. Nossa motivação sempre foi apresentar a trajetória humana do Lula que ninguém conhece. Uma trajetória tão rica que acho que será possível assistir ao filme sem lembrar que aquele personagem é o presidente da República. Ou, no sentido oposto, da antidramaturgia: por já saber o final da história, o espectador poderá se comover com a história sem lembrar que se trata do presidente. O filme cobre quase quatro décadas da história de Lula e do país.


O começo do filme lembra Vidas Secas, um dos grandes clássicos do cinema brasileiro, que você fotografou utilizando apenas a luz natural do sertão.


O início do filme é uma homenagem assumida que o fotógrafo Gustavo Hadba quis fazer a Vidas Secas, como se, através de um corte, aquela família - Sinhá Vitória, Fabiano e os filhos – fosse colocada no pau-de-arara. Tem até um cachorro – só que a Baleia, de Vidas Secas, foi comprada por 500 mil réis na feira, e Lobo, da produção atual, foi interpretado por dois cães amestrados. A migração interna em decorrência da seca é um elemento muito forte do filme e na história do país. Em 1930, Raquel de Queiroz já relatava os estragos da seca em O Quinze. A questão da migração sempre nos interessou, e foi abordada em duas produções recentes: o documentário 2000 Nordestes, de Vicente Amorim e David França Mendes, e O Caminho das Nuvens, também de Vicente Amorim.


O que Lula, o Filho do Brasil representa na sua carreira de produtor?


Tenho uma identificação muito especial e emocional com a história. Não sou de Pernambuco, mas do Ceará. Meu pai saiu de casa quando eu tinha três anos, levando meu irmão mais velho, e os dois sumiram no mundo. Minha mãe, Raimunda, criou sozinha 11 filhos - eu era o caçula – e como Lindu, ela nunca deixou ninguém se desgarrar. Não vim para o Rio de caminhão, mas de avião do correio aéreo nacional, um pau-de-arara da FAB. Todos esses aspectos me mobilizaram muito. Além disso, o filme representa uma nova fase da produtora, pois foi quase que inteiramente realizado pela nova geração: Fábio voltou à forma que exibiu em O Quatrilho, Paula vem se revelando uma produtora excepcional e armou toda a operação com competência e rigor, sem nenhum aporte de leis municipal, estadual ou federal. O roteirista Daniel Tendler, um jovem talentoso, é casado com a minha neta Julia, que trabalha no filme, assim como Helena, filha do Bruno. Por tudo isso, pelas afinidades e pela continuidade, também me considero um migrante nordestino que deu certo.


Por que abrir mão das leis de incentivo fiscal e da captação com empresas públicas?


No planejamento deste projeto optamos pelo desafio de captar recursos sem o uso das leis de incentivo fiscal e do patrocínio de empresas estatais. Não seria adequado usar o dinheiro público para contar a vida do presidente Lula, apesar de estarmos realizando, em primeira e última instância, um produto cultural. Queríamos também, com isso, ter liberdade para darmos o nosso olhar sobre a história desse personagem e sobre o ambiente daquele período turbulento na história do país sem sofrer qualquer tipo de interferência político-partidária.


Como produtor mais experiente do país, como você avalia o risco de fazer um filme como Lula, o Filho do Brasil?


Depois de tantos anos produzindo filmes tão diversificados, você adquire um certo know-how de risco. E descobre que na verdade, a maioria dos filmes é um grande risco. Vou dar dois exemplos. Quando compramos os direitos de Dona Flor, de repente nos vimos sem co-produtor (que seria Walter Clark, da Rede Globo), e sem diretor: por motivos diferentes, Glauber (que tinha me sugerido a compra dos direitos, pois queria fazer um musical), Joaquim Pedro de Andrade e Cacá Diegues não puderam fazer. Bruno, na época com 20 anos, acabou assumindo a direção, para horror do Cacá que me advertia: “isso é uma loucura, você vai queimar o menino”. Deu no que deu. Mais recentemente, quando decidimos filmar O que é isso, companheiro?, baseado no livro do Fernando Gabeira, cansamos de ouvir que era um projeto muito arriscado, polêmico, outra loucura. O resultado foi uma ótima carreira, um intenso debate, repercussão internacional, sem falar que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro.


Mesmo levando em conta que o risco faz parte da atividade, Lula, o Filho do Brasil não teria um risco específico? Afinal, se Lula tem altos índices de popularidade conta também com muitos críticos e adversários.


O maior risco seria resultar em um filme chapa-branca, laudatório da personalidade. Esta era a maior armadilha de se abordar uma personagem tão rica e conhecida. Pode-se falar o que quiser do filme – gostar, não gostar, discutir, mas não se pode nunca dizer que seja um filme político ou de exaltação à personalidade ou ao governo. O filme não mitifica o Lula, até porque ele já é um mito. Na verdade, o filme vai na direção oposta – ele desmistifica, desconstrói, humaniza o Lula. Não tem embate político na história e os fatos mais importantes atuam como pano de fundo. Aparece sim o seu envolvimento sindical – essencial na sua formação até 1980. O filme conta a história de uma pessoa simples e sua capacidade de superar as dificuldades. É difícil falar em destino, mas aquela família não aceitou que o destino fosse inexorável. E essa força da transformação é o maior motivo do filme.


Com Dona Flor, em 1976, você atingiu um público de 12 milhões de espectadores, recorde insuperável há mais de 30 anos. Lula tem um índice de aprovação por volta de 70%. Chegou a hora de superar essa marca?


Não agüento mais falar desses 12 milhões de espectadores (risos). Acredito que Dona Lindu e seu filho tenham potencial para igualar ou até superar Dona Flor e seus dois Maridos. O filme tem um exemplo de vida extremamente popular e, se não fosse uma atitude pára-fascista, deveria ser exibido nas escolas primárias para mostrar que a pobreza não é uma condenação do ponto de vista individual. É lógico que socialmente seriam necessárias medidas em outra escala. Os filmes são lançados visando um público horizontal, mas devemos ir ao pré-sal, tentar atingir todas as camadas. Não vamos nos conformar com 70% - queremos uma aprovação maior que a do governo Lula, até porque o filme não mostra uma trajetória política, mas de vida. As pessoas podem ter a opinião que quiserem sobre o governo Lula, mas não poderão negar a riqueza de seu percurso. Faremos tudo para o filme ser visto – por admiradores e principalmente adversários. Não há garantia de sucesso – apenas a certeza de termos feito o melhor que podíamos. Quem não quiser ver o filme por preconceito político vai perder uma notável trajetória humana.


Como atingir a enorme faixa da população que vive em cidades sem cinemas?


Traçamos várias estratégias, desde um intenso trabalho junto aos exibidores, semelhante ao que fizemos na época de Dona Flor, só trocando o telex semanal por e-mail, e tentaremos estar presentes em todas as cidades com mais de 100 mil habitantes. Estamos fazendo um mapeamento das salas de exibição em todo o país e pretendemos chegar às cidades sem cinemas através de 12 a 15 “cine-transformers”, caminhões super-equipados, uma espécie de cinema-volante de alta tecnologia. Daremos uma grande ênfase à exibição, para que a população não tenha que esperar dois anos pela chegada do filme à TV aberta.


Você tem 81 anos, esteve à frente de mais de 80 filmes, entre eles vários clássicos do cinema brasileiro, lançou muitos cineastas, levou à tela adaptações dos maiores nomes da literatura brasileira, mostrou a vida de Pelé, Garrincha e agora lança um filme sobre um personagem que chegou à Presidência da República. O que falta?


A democratização do consumo cultural, que só acontecerá com a plena vigência do vale cultura. Por esse mecanismo, os recursos provenientes da renúncia fiscal iriam diretamente para o consumidor escolher o que quer ver, ler ou ouvir. Produtores, diretores e artistas seguiriam esse fluxo, o que tornaria nossa produção socialmente justificada. O capitalismo brasileiro ainda utiliza um cacoete do pré-capitalismo: muito lucro vendendo pouco. O mercado consumidor brasileiro ficou muito tempo entre 20 e 30 milhões de pessoas, mas agora atinge de 70 a 80 milhões, e os segmentos que perceberam esta mudança estão se dando muito bem. A produção cultural, no entanto, continua produzindo apenas para a classe média ou classe média alta. Com essa democratização cultural eu me sentiria plenamente realizado.

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Lucy Barreto (Produtora)


Qual o seu envolvimento com Lula, o Filho do Brasil?


Acompanho a trajetória de Lula desde os anos 70. Sempre achei que ele representava uma nova alternativa no cenário político brasileiro, sem a ideologia de esquerda ou direita, comunismo ou não comunismo. Para ele, sempre existiu a ideologia dos que têm e dos que não têm – e eu concordo inteiramente com ele. Fui a vários de seus comícios. O filme, no entanto, não aborda a trajetória política de Lula, que todo mundo conhece, mas mostra a história de um brasileiro comum, de um Silva, equivalente a um Smith nos Estados Unidos, a um Dupont na França. Esse Silva deu inúmeras provas de uma extraordinária capacidade de superação. E isso me interessa: pessoas que conseguem enfrentar os problemas e superá-los.


Como ficou a sua visão de Lula depois de ler o livro de Denise Paraná?


O livro enriqueceu muito a visão que eu tinha do Lula, através de depoimentos fundamentais de parentes e companheiros de Sindicato. Havia o mito de que Lula não estudou, o que não é verdade. Ele tem um diploma do Senai, e tem, sobretudo, um fantástico exercício de vida e uma grande determinação – além da capacidade de resolver problemas. Desde o início do projeto, Luiz Carlos, Fábio, Paula e eu concordamos que o livro de Denise Paraná seria uma história exemplar, sobretudo de resgate da auto-estima do brasileiro, que tem tanta tendência a se diminuir, a não acreditar em si próprio. Lula vai na contra-mão deste sentimento: ele é exemplo de uma pessoa que acreditou em si própria. E é verdade que uma pessoa, que consegue feitos tão extraordinários, apesar das dificuldades, tem sempre uma pessoa por trás: um pai, uma mãe, uma avó, um padrinho. No caso de Lula, foi a presença de Dona Lindu. E me interessa seguir essas histórias de vida. Sempre se aprende muito com elas. Talvez a maior marca de Lula seja a tenacidade. E na sua trajetória, entram também questões do destino: se Lurdes não tivesse morrido talvez ele estivesse até hoje no ABC vendo TV, que era o que mais gostava. É muito interessante pensar no papel que o acaso desempenhou na vida deste homem, a princípio, tão comum.


Qual foi a sua participação na realização do filme?


O filme foi um trabalho de família que reuniu três gerações. Vi Luiz Carlos mostrar o mesmo entusiasmo e vivacidade de quando fez D. Flor. Ver essa energia não tem preço. Atribuo esse entusiasmo a muitos pontos comuns entre a história de Lula e do Luiz Carlos - seu pai também abandonou a família, e sua mãe, Dona Raimunda, criou 11 filhos. Minha maior participação foi na feitura do roteiro, um trabalho de dois anos, inúmeros tratamentos, até chegar ao ponto, ao osso. Tivemos que deixar de fora muitas histórias e detalhes, e posso dizer que já temos material suficiente para uma minissérie. Depois assisti aos copiões, acompanhei a montagem. Mas minha maior contribuição foi na dramaturgia.


E qual foi a sua maior preocupação na feitura do roteiro?


De modo geral, um roteiro moderno se baseia na fórmula causa-efeito, ou seja, uma ação tem que provocar determinada reação, e com essa fórmula se corre o risco de fazer um filme episódico. Eu tinha a preocupação de não subordinar a história a truques, esquemas. Cada história deve ser abordada da maneira que ela pede – a do Lula é uma trajetória de vida, não é um filme de ação. Daniel é um jovem roteirista muito talentoso e empenhado, Denise, autora do livro, também participou do roteiro e a colaboração do Fernando Bonassi, com sua vivência do ABC foi fundamental. Acredito que chegamos aonde queríamos: o filme conta uma trajetória humana.


E qual foi o seu envolvimento com a criação da D. Lindu?


Lembrei-me muito da minha sogra, Dona Raimunda. Como toda nordestina preocupada com a família, ela não falava muito e se expressava em bordões, assim como D. Lindu faz: “teimar, tem que teimar”, “rapadura é doce mas não é mole não”, “cuidado com o andor que o santo é de barro”, “trabalho primeiro, diversão depois”. Eu me preocupei muito em não fazer uma mãe derramada, mas uma mãe nordestina, da vida. São mães mais duras, que quando querem agradar, dão uns tapinhas na cabeça dos filhos. Mães que lutam com um único objetivo: que seus filhos tenham uma vida melhor. E esse é um sentimento universal.


O que você achou de se parar a história em 1980?


Acredito que a atuação sindical foi a grande escola de Lula: ele era um excelente observador, aprendeu muito, ao mesmo tempo em que exercitava características muito particulares – como a habilidade de negociação, a capacidade de liderança, a conciliação no momento certo. Todos achamos que, a partir da experiência sindical de Lula e com a morte de D. Lindu, havia uma boa razão para parar o filme ali. O resto da história já é conhecido por todos.


Qual a sua expectativa em relação ao filme?


Por um lado, a melhor possível. Acho que fizemos um belo filme. Mas sabemos também que um filme só existe quando ele chega a seu público. Mas aprendi também a não fazer muitas projeções ou criar expectativas e viver intensamente o dia de hoje. Cinema é sempre um risco, e o que vale é fazer com paixão. Nós tentamos fazer o melhor – que sempre foi o lema da minha vida. E o filme já valeu pelos bons momentos que nos proporcionou.


Você tem uma carreira de produtora vitoriosa. O que falta para você se sentir plenamente realizada?


Concordo com Luiz Carlos em relação ao vale cultura e também ao aumento de salas de cinema, através da implantação de pequenos centros – quatro telas no máximo, com livrarias, caixa eletrônica, alguns serviços de demanda básica. Tornar o cinema acessível à população em geral e democratizar plenamente a cultura. É isso que falta.

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Paula Barreto (Produtora)


Lula, o Filho do Brasil atravessa quatro décadas – de 1945 a 1980 e várias locações. Qual o principal desafio de montar uma produção desse porte?


Justamente esta: montar uma operação que envolve tantos elementos, épocas, locações – sem falar no elenco e figurantes. A produção foi inteiramente dividida com Rômulo Marinho e nosso maior trunfo foi desenvolver um minucioso trabalho prévio. Começamos a trabalhar em julho de 2008 – antes mesmo do roteiro definitivo estar pronto e antes da escolha do ator. Quando as filmagens começaram, em 20 de janeiro de 2009, todos os elementos possíveis de serem previstos estavam equacionados. Felizmente, imprevistos que sempre ocorrem foram mínimos e puderam ser contornados sem prejuízo para o todo. E graças a esse planejamento, a previsão inicial de 12 semanas de filmagens foi reduzida para oito. Sem correrias. Filmamos muito – o primeiro corte tinha 3 horas. A versão final ficou com 2h03.


Quais os principais elementos da preparação?


Começamos por Pernambuco. A preparação do início do filme, em Garanhuns, que fica a 30 minutos de Caetés, onde Lula nasceu, foi essencial. Fizemos essa viagem com o fotógrafo Gustavo Hadba e o diretor de arte Clóvis Bueno. Nessa fase foram definidos e esmiuçados todos os detalhes de filmagens – inclusive a opção de não usar um só refletor para captar a luz nordestina - uma decisão do Gustavo Hadba para homenagear a fotografia de Vidas Secas de Luiz Carlos Barreto. Quando as filmagens começaram, já estava tudo pronto – do cachorro Lobo ao caminhão de retirantes, o mesmo utilizado em Cinema, aspirina e urubus. Quando a equipe chegou para filmar, o elenco e a figuração escolhida no local já tinham ensaiado e estavam prontos para filmar, assim com as locações, cenários, figurinos, objetos de cena. Uma filmagem a princípio complexa, foi realizada em cinco dias. Optamos por levar apenas as cabeças de equipe, o que agilizou muito a produção, enquanto a base ficou em São Paulo. Trabalhamos, em média, com equipe de 70 a 100 pessoas. Não é pouca coisa!


E como foram as filmagens em São Paulo?


Depois do Nordeste, fomos para Santos onde filmamos cinco dias em Itapema. E depois no ABC, onde as distâncias são imensas, o trânsito terrível e detalhe: chove todos os dias. Este é o meu terceiro filme em São Paulo (depois de O Casamento de Romeu e Julieta e Caixa Dois) e posso assegurar: chove todo dia. Como dois terços do filme foram filmados em exterior, ficamos devotos do serviço de meteorologia do Google, sobretudo para cenas de multidão. Em São Paulo, pode-se dizer que só foi ‘pauleira’ nas cenas de multidão em estádio e nas de Igreja lotada. Eu diria que 70% das cenas foram filmadas em locações – e buscamos, sempre que possível, filmar nos locais em que as coisas aconteceram (sindicatos, igrejas, praças, estádio). 30% das cenas filmadas em estúdio, uma, excepcionalmente trabalhosa, foi cortada - a do desabamento da casa de Lula durante o velório. Apesar de verdadeira, achamos que seria demais para o espectador. Ninguém acreditaria. No total, foram 70 locações, em dois estados e sete cidades.


O filme tem um grande elenco e muitos figurantes. Como foi administrar esse contingente humano?


No total, eram 130 atores com fala. Os sete filhos de Dona Lindu (além do Lula) foram interpretados por 21 atores – uma leva para cada fase: infância, adolescência e idade adulta. E mais: deveriam ter alguma semelhança. A família de Lula apresentou ainda um agravante: até um mês antes das filmagens, Lula seria interpretado Tay Lopes, e seus irmãos tinham um perfil. Por problemas de saúde, ele não pode fazer o papel. A escolha de Rui Ricardo levou à mudança de todos os irmãos, em todas as fases, em busca de uma semelhança. No total trabalhamos com 3.000 figurantes.


E como foi o trabalho da produção com Rui Ricardo?


Toda a filmagem teve que acompanhar a transformação física de Lula – que incluía mudança de peso, barba e bigode. Rui Ricardo foi filmado em três fases, e de trás para a frente: aos 35 anos, com barba, bigode, e 10 quilos a mais; aos 25 anos, com bigode e sete quilos a menos; e aos 20 anos, sem barba e bigode, 10 quilos a menos do início do filme. Fora o susto inicial – ficar sem ator - não tivemos nenhum problema com o elenco.


Depois do filme pronto, que avaliação você faz da maior dificuldade de uma produção deste porte?


Transmitir a maior veracidade possível da realidade da época, não glamurizar a casa, as roupas, os objetos, as pessoas. Não ter medo da dureza, da aridez, da falta, da miséria. Para evitar qualquer tentação nesse sentido, contamos com o olhar atento de Frei Chico (Ziza), irmão de Lula, que acompanhou todas as filmagens. Ele era a memória viva daquela época e nos dizia: “Nós não éramos pobres – éramos miseráveis: as crianças usavam calça de saco, camisas rasgadas, não tinham o que calçar.” Não havia motivo para maquiar essa realidade.


Como você define Lula, O Filho do Brasil?


O filme conta uma história de superação, um exemplo de vida de uma pessoa que por acaso é presidente da República. Se ele não tivesse uma boa história, ela não seria contada. E a história de Lula é altamente improvável, quase surreal. O mais incrível nesta trajetória é que muitas coisas que aconteceram na vida dele, foram à sua revelia. Ele não queria, não buscou aquelas circunstâncias que acabaram levando-o aonde chegou. Quando perde a mulher e o filho, ele se agarra na militância como tábua de salvação. Ele não gostava de política, e introduz coisas práticas na política sindical que acabaram mudando o rumo da vida dele, do sindicato e do país.


Como foi lidar com o peso da responsabilidade de uma produção desse porte e qual a sua expectativa de público?


Quando assumi a produção não senti esse peso. Fui em frente, muito bem assessorada. Porque se pensar muito, não faz. Sabíamos que tínhamos uma história excepcional para contar, e trabalhamos muito para contar da melhor maneira possível. Não é um filme político – ao contrário, é um filme de desconstrução do político – a trajetória de um ser humano. Lula tem alto índice de popularidade e o lançamento apresenta um desafio interessante: quem gosta de Lula não pode pagar o preço do ingresso, e quem pode pagar não gosta de Lula.


Lula, o Filho do Brasil foi realizado sem a utilização de Leis municipal, estadual ou Federal. Quem são os sócios desta produção?


Os sócios são a LC Barreto / Filmes do Equador e a Intervídeo Digital. Nossa intenção é fazer um lançamento simultâneo em vários países da América do Sul, e possivelmente até estendê-lo para a América Latina. Nossa expectativa é de ter uma excelente distribuição no Brasil e no exterior e uma bilheteria semelhante ou superior ao filme Dois Filhos de Francisco – cerca de 5 milhões de espectadores.

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